{"id":8189,"date":"2026-08-10T06:03:02","date_gmt":"2026-08-10T06:03:02","guid":{"rendered":"https:\/\/theschoolofwe.com\/?p=8189"},"modified":"2026-08-10T06:16:38","modified_gmt":"2026-08-10T06:16:38","slug":"tres-vezes-a-mesma-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/theschoolofwe.com\/pt-pt\/tres-vezes-a-mesma-entrevista\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas vezes a mesma entrevista"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 entrevistas que se esquecem no dia seguinte. E h\u00e1 entrevistas que, por alguma raz\u00e3o, ficam connosco. N\u00e3o necessariamente porque revelem algo de extraordinariamente novo, mas porque se recusam a esgotar-se. Acabamos de as ouvir, continuamos a pensar nelas e, quando voltamos uns dias depois, descobrimos coisas que n\u00e3o t\u00ednhamos ouvido da primeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conversa entre <a href=\"https:\/\/youtu.be\/XuoqKYxDHVc?si=qjcaChzp98AmGn48\">Zanny Minton Beddoes e Elon Musk no <em>The Economist<\/em><\/a> est\u00e1 a ser, para mim, uma dessas entrevistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a ouvi tr\u00eas vezes. A grava\u00e7\u00e3o era exatamente a mesma, as palavras eram as mesmas e os protagonistas tamb\u00e9m. Mas, de cada vez, ouvi uma entrevista diferente. Ao princ\u00edpio, pensei que estava simplesmente a descobrir novas nuances. Neste momento, creio que aconteceu algo mais interessante: entre uma escuta e outra passou tempo. Pensei, escrevi, conversei e voltei a ouvir a partir de outro lugar. E talvez esse processo seja t\u00e3o importante como a pr\u00f3pria entrevista.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Primeira escuta: o crash<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da primeira vez, ouvi, fundamentalmente, duas pessoas no centro do poder a chocarem frontalmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De um lado estava Elon Musk, o homem mais rico do mundo e respons\u00e1vel por empresas que est\u00e3o a intervir diretamente em alguns dos dom\u00ednios que provavelmente definir\u00e3o as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas: autom\u00f3vel, espa\u00e7o, energia, comunica\u00e7\u00f5es, redes sociais, rob\u00f3tica e intelig\u00eancia artificial. Eu ouvia nele a voz da disrup\u00e7\u00e3o, da acelera\u00e7\u00e3o, da convic\u00e7\u00e3o de que boa parte daquilo que hoje consideramos est\u00e1vel vai mudar radicalmente e de que tentar impedi-lo pode ser t\u00e3o in\u00fatil como contraproducente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do outro lado estava Zanny Minton Beddoes, diretora do <em>The Economist<\/em>, uma das institui\u00e7\u00f5es intelectuais mais influentes do capitalismo liberal, esse capitalismo ao qual servem as nossas democracias. Nela, ouvia outra sensibilidade: a import\u00e2ncia das institui\u00e7\u00f5es, as consequ\u00eancias das decis\u00f5es, os contrapoderes democr\u00e1ticos, a responsabilidade de quem acumula poder e a necessidade de submeter as grandes promessas sobre o futuro ao escrut\u00ednio daquilo que provocam no presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que tornava a cena extraordin\u00e1ria era o facto de nenhum dos dois falar a partir das margens. N\u00e3o est\u00e1vamos a ver um revolucion\u00e1rio a enfrentar o poder estabelecido a partir de fora do sistema. Ambos estavam no centro. Poder frente a poder. Elite frente a elite. Duas pessoas com uma capacidade extraordin\u00e1ria para intervir sobre a realidade que, no entanto, pareciam em alguns momentos nem sequer partilhar uma descri\u00e7\u00e3o comum dessa realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse foi o meu primeiro <em>crash<\/em>. O mais imediato. Aquele que me levou a come\u00e7ar a escrever sobre a entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Segunda escuta: o crash elevado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando voltei a ouvi-la, alguma coisa tinha mudado. Comecei a atenuar a identifica\u00e7\u00e3o entre as vozes e as pessoas que as pronunciavam. J\u00e1 n\u00e3o ouvia apenas Musk e Beddoes. Come\u00e7ava a perceber os ecos que as suas posi\u00e7\u00f5es convocavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Musk falava, conseguia ouvir, sem necessidade de afirmar que ele fosse qualquer uma dessas coisas, ecos do revolucion\u00e1rio e do conquistador, do empreendedor norte-americano e do mito da fronteira, do engenheiro e da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, da gera\u00e7\u00e3o digital e da destrui\u00e7\u00e3o criativa, da vontade de atravessar o limite para descobrir o que existe do outro lado. Conseguia at\u00e9 ouvir o princ\u00edpio masculino entendido de forma arquet\u00edpica: a pot\u00eancia que avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o a um objetivo e aceita que transformar implica tamb\u00e9m destruir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Beddoes respondia, surgiam outros ecos. A Europa, as institui\u00e7\u00f5es, a mem\u00f3ria hist\u00f3rica, a continuidade, o limite, as consequ\u00eancias, aquilo que j\u00e1 existe e que poderia perder-se. A voz de quem, perante a promessa de um futuro melhor, pergunta o que acontecer\u00e1 durante a transi\u00e7\u00e3o, quem suportar\u00e1 os seus custos e o que estamos dispostos a destruir para l\u00e1 chegar. Tamb\u00e9m conseguia ouvir um princ\u00edpio feminino, igualmente arquet\u00edpico: a sensibilidade para com aquilo que precisa de ser sustentado enquanto algo novo tenta nascer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda n\u00e3o sei quanta verdade existe nestas associa\u00e7\u00f5es. Algumas provavelmente sobreviver\u00e3o a novas audi\u00e7\u00f5es e outras talvez se revelem demasiado f\u00e1ceis. O importante para mim n\u00e3o era decidir se Musk representa realmente a Am\u00e9rica ou Beddoes a Europa, se um encarna o masculino e a outra o feminino, ou se um pertence ao futuro e a outra ao passado. O importante era perceber que, quando deixava de ouvir as suas palavras apenas como opini\u00f5es individuais, a entrevista come\u00e7ava a encher-se de outras vozes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O di\u00e1logo entre duas pessoas transformava-se assim no palco de tens\u00f5es muito mais antigas: cria\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o, rutura e continuidade, futuro e mem\u00f3ria, pot\u00eancia e limite, aventura e lar, partir e ficar, revolu\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o. E uma entrevista que j\u00e1 me tinha parecido extraordin\u00e1ria adquiria uma dimens\u00e3o que n\u00e3o tinha percebido da primeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse foi o meu segundo <em>crash<\/em>. Aquele que surge quando, por detr\u00e1s de duas vozes concretas, come\u00e7amos a ouvir os ecos de for\u00e7as que as ultrapassam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Terceira escuta: o crash elevado ao crash<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 terceira vez aconteceu algo ainda mais estranho. Talvez porque j\u00e1 tivesse pensado e escrito o suficiente sobre a entrevista, deixei de tentar compreend\u00ea-la. N\u00e3o procurava confirmar nenhuma interpreta\u00e7\u00e3o. Limitei-me a voltar a ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o deixei de saber com tanta clareza onde terminavam Musk e Beddoes e onde come\u00e7ava eu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque a pot\u00eancia e o limite n\u00e3o existem apenas entre eles. Tamb\u00e9m existem dentro de mim. Tamb\u00e9m eu conhe\u00e7o o desejo de construir algo novo e a resist\u00eancia a destruir aquilo que tanto custou a construir. Tamb\u00e9m conhe\u00e7o a impaci\u00eancia perante institui\u00e7\u00f5es que parecem incapazes de responder \u00e0 velocidade da mudan\u00e7a e, ao mesmo tempo, o receio de que essa impaci\u00eancia acabe por arrasar coisas cujo valor s\u00f3 compreenderemos depois de as termos perdido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A entrevista tinha deixado de ser apenas um objeto que eu observava de fora. Tinha-se transformado num espelho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o algumas interven\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a soar de outra maneira. Uma pergunta de Beddoes podia continuar a ser a pergunta concreta de uma jornalista a um empres\u00e1rio e, ao mesmo tempo, conter outra pergunta muito mais ampla, da conserva\u00e7\u00e3o \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o: <strong>o que vais destruir para l\u00e1 chegar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E algumas respostas de Musk podiam continuar a ser as respostas concretas de um empres\u00e1rio e, ao mesmo tempo, expressar a impaci\u00eancia do emergente perante o estabelecido: <strong>n\u00e3o podes pedir-me que preserve um mundo que estou precisamente a tentar ultrapassar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o afirmo que seja isso que Musk e Beddoes estavam a dizer. Provavelmente, eles pr\u00f3prios rejeitariam muitas destas interpreta\u00e7\u00f5es. O que procuro descrever \u00e9 algo diferente: aquilo que come\u00e7ou a acontecer na minha escuta quando permiti que as suas palavras ressoassem para al\u00e9m da inten\u00e7\u00e3o imediata de quem as pronunciava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse foi o meu terceiro <em>crash<\/em>. A vertigem de descobrir que duas pessoas concretas podem estar a dar voz, sem o pretenderem, a tens\u00f5es que as ultrapassam enormemente e que, al\u00e9m disso, essas tens\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o apenas no mundo que observo. Tamb\u00e9m est\u00e3o em mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E ent\u00e3o as perguntas mudam<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chegado aqui, a minha tenta\u00e7\u00e3o inicial foi procurar uma s\u00edntese. Decidir quem tinha raz\u00e3o ou encontrar uma formula\u00e7\u00e3o capaz de reconciliar ambas as posi\u00e7\u00f5es. Algo semelhante a perguntar-me como podemos permitir que o novo nas\u00e7a sem abandonar aquilo que merece permanecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas agora penso que at\u00e9 isso seria precipitado. Porque uma das coisas de que esta entrevista me est\u00e1 a fazer recordar \u00e9 que talvez ainda n\u00e3o tenha de encontrar a pergunta certa. Talvez deva permitir que surjam v\u00e1rias perguntas e observar o que o tempo faz com elas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se ouvir a partir de Musk, posso perguntar-me quanto daquilo que existe estamos a conservar simplesmente porque temos medo de o perder. Quantas institui\u00e7\u00f5es, formas de trabalhar ou maneiras de nos organizarmos continuamos a proteger n\u00e3o porque ainda cumpram a sua fun\u00e7\u00e3o, mas porque n\u00e3o conseguimos imaginar o que viria depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se ouvir a partir de Beddoes, surge a pergunta contr\u00e1ria: quanto estamos dispostos a destruir em nome de um futuro que ainda n\u00e3o existe. O que acontece \u00e0s pessoas que vivem durante a transi\u00e7\u00e3o, quem decide que danos s\u00e3o aceit\u00e1veis e o que fazemos quando aquilo que destru\u00edmos se revela imposs\u00edvel de reconstruir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se tentar ouvir ambas as vozes em simult\u00e2neo, surge outra pergunta: como sabemos o que merece permanecer e o que precisa de desaparecer para que algo novo possa nascer?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E se deixar de os ouvir a eles e me ouvir a mim pr\u00f3prio, surge uma pergunta talvez ainda mais inc\u00f3moda: <strong>porque \u00e9 que preciso de resolver esta tens\u00e3o t\u00e3o rapidamente? O que aconteceria se permanecesse dentro dela durante mais algum tempo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que o tempo faz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja esta a parte de toda esta experi\u00eancia que mais me interessa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre a primeira e a terceira escuta, a entrevista n\u00e3o mudou. Mudei eu. E n\u00e3o mudei porque tivesse encontrado nova informa\u00e7\u00e3o sobre Musk ou Beddoes, mas porque passou tempo. Depois da primeira escuta, escrevi sobre o choque frontal entre duas institui\u00e7\u00f5es que pareciam representar formas diferentes de compreender o mundo. Depois da segunda, comecei a perguntar-me se, por detr\u00e1s desse confronto, n\u00e3o partilhariam na realidade um mesmo paradigma sobre a intelig\u00eancia e o seu lugar na nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Escrever esses tr\u00eas artigos, conversar sobre eles e discutir algumas das minhas pr\u00f3prias conclus\u00f5es alterou inevitavelmente a forma como voltei a ouvir a entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por isso a terceira escuta tenha sido diferente. J\u00e1 n\u00e3o podia regressar \u00e0 conversa como se n\u00e3o tivesse pensado sobre ela. Algumas interpreta\u00e7\u00f5es tinham-se fortalecido, outras come\u00e7avam a parecer-me demasiado f\u00e1ceis e surgiam perguntas que simplesmente n\u00e3o estavam dispon\u00edveis para mim durante a primeira escuta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A nossa forma habitual de nos relacionarmos com a atualidade funciona de outra maneira. Ouvimos alguma coisa, reagimos, opinamos, publicamos e passamos ao assunto seguinte. A velocidade com que a informa\u00e7\u00e3o circula empurra-nos a comportarmo-nos como se compreender consistisse em sermos capazes de formular uma opini\u00e3o o mais rapidamente poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta entrevista est\u00e1 a sugerir-me o contr\u00e1rio. Talvez ouvir n\u00e3o consista apenas em prestar aten\u00e7\u00e3o enquanto algu\u00e9m fala. Talvez ouvir tamb\u00e9m consista em dar tempo \u00e0quilo que ouvimos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 coisas que s\u00f3 conseguimos ouvir depois de j\u00e1 as termos ouvido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da primeira vez recebemos as palavras. Da segunda come\u00e7amos a perceber alguns dos seus ecos. Da terceira talvez descubramos que aquilo que julg\u00e1vamos estar a observar fora de n\u00f3s tamb\u00e9m estava a acontecer dentro de n\u00f3s. E n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma para pensar que a terceira escuta seja definitiva. Uma quarta poderia desmontar tudo o que veio antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Continuar a ouvir<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, j\u00e1 n\u00e3o tenho tanta pressa em decidir o que significa esta entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez daqui a seis meses algumas das coisas que hoje parecem excentricidades de Musk comecem a parecer sintomas precoces de uma transforma\u00e7\u00e3o muito maior. Talvez algumas das obje\u00e7\u00f5es de Beddoes que hoje podem soar a defesa do <em>statu quo<\/em> se revelem avisos essenciais. Talvez aconte\u00e7a exatamente o contr\u00e1rio. Ou talvez descubramos que as categorias com que estamos a tentar compreender ambos eram demasiado pequenas desde o in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda n\u00e3o sabemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E come\u00e7o a pensar que reconhec\u00ea-lo n\u00e3o \u00e9 uma fraqueza do pensamento, mas uma das suas condi\u00e7\u00f5es. Podemos deixar que as correspond\u00eancias permane\u00e7am em cima da mesa, voltar \u00e0 entrevista, observar quais reaparecem, acrescentar outras, descartar as que se revelem demasiado f\u00e1ceis e permitir at\u00e9 que umas contradigam as outras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 preciso escolher um lado. Nem reconciliar as duas vozes. Nem sequer decidir ainda que arqu\u00e9tipo representa cada uma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos fazer algo bastante menos habitual e que, nestes tempos de grandes <em>crashes<\/em>, \u00e9 fundamental: <strong>continuar a ouvir<\/strong>. E talvez aprender a aceitar que as conversas importantes se reconhecem precisamente porque, quando terminam, continuam.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Nota editorial<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto foi inicialmente publicado no <a href=\"http:\/\/blog.carlosgoga.com\/\" type=\"link\" id=\"http:\/\/blog.carlosgoga.com\/\">blogue de Carlos Goga<\/a> e faz parte de uma conversa que come\u00e7ou com a entrevista de <em>The Economist<\/em> a Elon Musk e que se tem vindo a transformar a cada nova escuta. Pode ser lido de forma independente, mas quem quiser percorrer todo o caminho pode faz\u00ea-lo atrav\u00e9s dos tr\u00eas artigos anteriores:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1. <a href=\"http:\/\/carlosgoga.com\/las-preguntas-que-arrastra-la-ia-no-son-ni-nuevas-ni-originales\/\">A entrevista que dividiu o mundo em dois (e porque \u00e9 importante)<\/a><\/strong><br>A primeira aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 entrevista: o confronto frontal entre Elon Musk e Zanny Minton Beddoes e as duas formas de entender o capitalismo, a democracia e o futuro que pareciam estar frente a frente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2. <a href=\"http:\/\/carlosgoga.com\/quizas-el-ultimo-debate-del-viejo-paradigma\/\">Talvez o \u00faltimo debate do velho paradigma<\/a><\/strong><br>A segunda reflex\u00e3o: a possibilidade de que, por detr\u00e1s das suas profundas diferen\u00e7as, ambos partilhem o mesmo paradigma e a mesma confian\u00e7a na intelig\u00eancia como fonte de legitimidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3. <a href=\"http:\/\/carlosgoga.com\/devolver-la-inteligencia-al-lugar-que-le-corresponde\/\">Devolver a intelig\u00eancia ao lugar que lhe corresponde<\/a><\/strong><br>A terceira reflex\u00e3o desloca o olhar do confronto para uma quest\u00e3o mais profunda: se a intelig\u00eancia \u00e9 um instrumento e n\u00e3o pode ser, por si s\u00f3, o fundamento, que lugar deve ocupar dentro de uma vida que merece ser vivida?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este quarto texto nasce de voltar a escutar a mesma conversa depois de ter escrito os tr\u00eas anteriores. N\u00e3o pretende corrigi-los nem substitu\u00ed-los. S\u00e3o diferentes etapas de um pensamento que continua em movimento e de uma conversa que, por enquanto, se recusa a terminar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 entrevistas que se esquecem no dia seguinte. E h\u00e1 entrevistas que, por alguma raz\u00e3o, ficam connosco. N\u00e3o necessariamente porque revelem algo de extraordinariamente novo, mas porque se recusam a esgotar-se. Acabamos de as ouvir, continuamos a pensar nelas e, quando voltamos uns dias depois, descobrimos coisas que n\u00e3o t\u00ednhamos ouvido da primeira vez. 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