{"id":8225,"date":"2026-08-15T07:55:47","date_gmt":"2026-08-15T07:55:47","guid":{"rendered":"https:\/\/theschoolofwe.com\/?p=8225"},"modified":"2026-08-15T08:13:58","modified_gmt":"2026-08-15T08:13:58","slug":"o-que-as-ferias-nos-ensinam-sobre-a-forma-como-trabalhamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/theschoolofwe.com\/pt-pt\/o-que-as-ferias-nos-ensinam-sobre-a-forma-como-trabalhamos\/","title":{"rendered":"O que as f\u00e9rias nos ensinam sobre a forma como trabalhamos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As f\u00e9rias s\u00e3o, habitualmente, uma oportunidade para recuperar energia. Mas talvez possam ser mais do que isso: constituem tamb\u00e9m um momento para percebermos o que o nosso corpo e a nossa mente nos dizem sobre a forma como estamos a trabalhar e o que queremos fazer de forma diferente quando regressarmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma frase que ouvimos muitas vezes quando as f\u00e9rias se aproximam: \u201cPreciso mesmo de parar.\u201d E h\u00e1 outra que frequentemente ouvimos poucas semanas depois do regresso: \u201cParece que nem fui de f\u00e9rias.\u201d Reconhe\u00e7o as duas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos anos, na minha pr\u00f3pria experi\u00eancia e nas conversas que vou tendo com l\u00edderes e equipas, tenho percebido como muitas pessoas chegam \u00e0s f\u00e9rias num estado de cansa\u00e7o acumulado. N\u00e3o necessariamente incapazes de \u201cfuncionar\u201d, mas sem d\u00favida com menos energia, menos espa\u00e7o mental e, muitas vezes, com aquela sensa\u00e7\u00e3o de que precisam de algum tempo at\u00e9 conseguirem verdadeiramente \u201cdesligar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por isso queira trazer uma proposta de reflex\u00e3o para este ver\u00e3o: <strong>O que significa, realmente, recuperar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabemos que parar e recuperar n\u00e3o s\u00e3o exatamente a mesma coisa. Podemos estar fisicamente de f\u00e9rias e continuar mentalmente no trabalho. Podemos n\u00e3o abrir o computador e, ainda assim, passar o dia a antecipar o que vamos encontrar no regresso. Podemos consultar o email \u201cs\u00f3 um bocadinho\u201d, responder \u00e0quela mensagem porque \u201c\u00e9 r\u00e1pido\u201d ou continuar a resolver mentalmente um problema enquanto estamos \u00e0 mesa com a fam\u00edlia. Em suma, o corpo saiu do escrit\u00f3rio. A aten\u00e7\u00e3o, nem sempre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta distin\u00e7\u00e3o tem fundamento na investiga\u00e7\u00e3o feita sobre recupera\u00e7\u00e3o do trabalho. Sabine Sonnentag e Charlotte Fritz, duas das investigadoras de refer\u00eancia nesta \u00e1rea, identificaram quatro tipos de experi\u00eancia que contribuem para a recupera\u00e7\u00e3o<strong>: o desligamento<\/strong> psicol\u00f3gico do trabalho; o <strong>relaxamento<\/strong>; <strong>experi\u00eancias de aprendizagem ou desafio<\/strong> (por prazer) e a sensa\u00e7\u00e3o de <strong>autonomia<\/strong> sobre aquilo que fazemos com o nosso tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como facilmente se entende, regenerar as nossas energias n\u00e3o significa necessariamente n\u00e3o fazer nada. Para algumas pessoas pode ser ler durante horas. Para outras, caminhar, cozinhar, nadar, aprender alguma coisa nova, conversar sem pressa ou estar simplesmente em sil\u00eancio. N\u00e3o existe uma atividade universalmente \u201ccerta\u201d. O importante \u00e9 conseguirmos criar condi\u00e7\u00f5es em que diminu\u00edmos as exig\u00eancias associadas ao trabalho e recuperamos alguma escolha sobre onde colocamos a nossa energia e aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 uma quest\u00e3o que, para mim, \u00e9 importante colocar: <strong>Conseguimos realmente desligar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos tend\u00eancia para tratar a recupera\u00e7\u00e3o como uma responsabilidade individual e \u00e9 verdade que passa muito por uma disciplina pessoal. Aprender a identificar os sinais de cansa\u00e7o, entender que tipo de tarefas ou pausas s\u00e3o mais regeneradoras e aplic\u00e1-las no dia a dia, \u00e9 fundamental. Contudo, a cultura da organiza\u00e7\u00e3o e a lideran\u00e7a t\u00eam, tamb\u00e9m aqui, um papel concreto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma investiga\u00e7\u00e3o recente de Sonnentag e colegas, mostra que os colaboradores t\u00eam maior probabilidade de se desligarem psicologicamente do trabalho quando percebem que os seus l\u00edderes respeitam as fronteiras entre o trabalho e o tempo pessoal. E esse desligamento est\u00e1, por sua vez, associado a uma menor exaust\u00e3o e a uma maior sensa\u00e7\u00e3o de recupera\u00e7\u00e3o no dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o basta dizer a algu\u00e9m, antes das f\u00e9rias, \u201cdescansa e aproveita\u201d, se dois dias depois enviamos uma mensagem que come\u00e7a por \u201cdesculpa incomodar, sei que est\u00e1s de f\u00e9rias, mas\u2026\u201d (e, j\u00e1 agora, nem sempre resolve acrescentarmos \u201cn\u00e3o precisas de responder\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para um l\u00edder, apoiar a recupera\u00e7\u00e3o pode ser t\u00e3o simples &#8211; e t\u00e3o dif\u00edcil &#8211; como criar sistemas de substitui\u00e7\u00e3o que funcionem, clarificar quem decide na aus\u00eancia de cada pessoa, n\u00e3o premiar disponibilidade permanente e respeitar genuinamente o per\u00edodo de f\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E quando regressamos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se regressamos exatamente ao mesmo n\u00edvel de exig\u00eancia, \u00e0 mesma aus\u00eancia de fronteiras e ao mesmo ritmo que nos levou \u00e0s f\u00e9rias exaustos, n\u00e3o podemos esperar que duas semanas de descanso transformem estruturalmente aquilo que acontece durante o resto do ano. E \u00e9 aqui que, para mim, as f\u00e9rias podem tornar-se particularmente interessantes. Podem funcionar como um pequeno \u201claborat\u00f3rio de observa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de perguntarmos apenas \u201cdescansei?\u201d, podemos questionar-nos \u201co que aconteceu nestes dias que me devolveu energia\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez tenhamos dormido mais e n\u00e3o ocupado o tempo com tantas tarefas. Talvez tenhamos caminhado mais ou feito mais exerc\u00edcio. Talvez tenhamos desligado um pouco do digital. Talvez tenhamos convivido mais com pessoas de quem gostamos ou passado mais tempo no exterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este exerc\u00edcio de observa\u00e7\u00e3o e questionamento \u00e9 importante porque aquilo de que sentimos falta quando regressamos, pode indicar-nos o que est\u00e1 ausente no nosso quotidiano e que eventualmente pode ser integrado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A investiga\u00e7\u00e3o sobre micro-pausas, por exemplo, sugere que pequenas interrup\u00e7\u00f5es ao longo do trabalho podem contribuir para diminuir a fadiga e aumentar a sensa\u00e7\u00e3o de maior energia e vigor. N\u00e3o s\u00e3o uma f\u00f3rmula m\u00e1gica para melhorar o desempenho, mas podem ajudar a gerir o esfor\u00e7o e a recupera\u00e7\u00e3o ao longo do dia. Tamb\u00e9m podemos preservar momentos sem est\u00edmulo entre reuni\u00f5es, sair alguns minutos do ecr\u00e3, caminhar, criar uma transi\u00e7\u00e3o entre o final do trabalho e a entrada em casa ou simplesmente resistir ao impulso de preencher todos os intervalos dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, mais uma vez, parte deste trabalho tem de acontecer na <strong>cultura da organiza\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um colaborador pode decidir n\u00e3o responder a emails depois das 18h. Mas ser\u00e1 muito mais f\u00e1cil faz\u00ea-lo se o seu l\u00edder tamb\u00e9m respeitar essa fronteira. Pode tentar fazer uma pausa entre tarefas. Mas ser\u00e1 dif\u00edcil se a cultura interpretar qualquer minuto n\u00e3o preenchido como falta de compromisso. Pode regressar das f\u00e9rias com a inten\u00e7\u00e3o de proteger melhor a sua energia. Mas essa inten\u00e7\u00e3o ter\u00e1 pouco espa\u00e7o se encontrar no primeiro dia uma agenda sem qualquer margem e a expectativa de recuperar imediatamente quinze dias de trabalho acumulado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, talvez o regresso das f\u00e9rias seja tamb\u00e9m uma oportunidade para os l\u00edderes colocarem algumas perguntas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>As pessoas da minha equipa conseguem realmente estar de f\u00e9rias quando est\u00e3o de f\u00e9rias?<\/li>\n\n\n\n<li>Que testemunho dou sobre disponibilidade e descanso?<\/li>\n\n\n\n<li>A forma como organizamos o trabalho permite alguma recupera\u00e7\u00e3o ao longo do ano &#8211; ou dependemos das f\u00e9rias para reparar meses de desgaste acumulado?<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Refor\u00e7o o que tantas vezes observo e que orienta o meu trabalho com organiza\u00e7\u00f5es: o bem-estar organizacional n\u00e3o se constr\u00f3i apenas atrav\u00e9s de programas de bem-estar. Constr\u00f3i-se tamb\u00e9m na agenda. Nos emails. Na distribui\u00e7\u00e3o do trabalho. Na qualidade da lideran\u00e7a. Na liberdade para desligar. Nos limites que s\u00e3o respeitados. E na possibilidade de estarmos por inteiro, dentro e fora da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o precisamos de regressar das f\u00e9rias com um plano de transforma\u00e7\u00e3o pessoal. Talvez baste regressar um pouco mais atentos, para n\u00e3o voltar automaticamente a tudo aquilo de que, afinal, precis\u00e1mos de f\u00e9rias para recuperar.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Refer\u00eancias:<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Sonnentag, S., &amp; Fritz, C. (2007). <\/em><em>The Recovery Experience Questionnaire: Development and validation of a measure for assessing recuperation and unwinding from work. <\/em><em>Journal of Occupational Health Psychology, 12(3), 204\u2013221. <\/em><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1037\/1076-8998.12.3.204\"><em>https:\/\/doi.org\/10.1037\/1076-8998.12.3.204<\/em><\/a><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Albulescu, P., Macsinga, I., Rusu, A., Sulea, C., Bodnaru, A., &amp; Tulbure, B. T. (2022). <\/em><em>\u201cGive me a break!\u201d A systematic review and meta-analysis on the efficacy of micro-breaks for increasing well-being and performance. PLOS ONE, 17(8), e0272460. <\/em><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0272460\"><em>https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0272460<\/em><\/a><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As f\u00e9rias s\u00e3o, habitualmente, uma oportunidade para recuperar energia. 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